Quem foi Nice da Silveira?

Ao longo da história da saúde mental, poucos nomes foram tão transformadores quanto o de Nise da Silveira. Médica psiquiatra brasileira, nascida em 1905, em Maceió, Alagoas, Nise tornou-se uma das maiores referências na humanização do tratamento psiquiátrico. Em uma época marcada por práticas agressivas e desumanizantes dentro dos hospitais, ela ousou questionar métodos estabelecidos e propôs um novo olhar sobre o sofrimento psíquico — um olhar baseado na empatia, na criatividade e no respeito à singularidade de cada pessoa. Seu legado não apenas revolucionou a psiquiatria brasileira, como também se tornou um símbolo da força e da importância das mulheres na ciência e na saúde.

Nise cresceu em um ambiente que valorizava o conhecimento e a educação, sendo seus pais professores, e seu pai também era jornalista. Desde jovem ela demonstrou grande interesse pelo estudo e pela compreensão do ser humano. Em 1921, mudou-se para Salvador para estudar medicina na Faculdade de Medicina da Bahia. Naquele período, a presença feminina nas universidades era extremamente rara, especialmente em cursos como medicina. Nise foi a única mulher entre mais de uma centena de estudantes de sua turma, o que já revela o quanto sua trajetória foi marcada pela coragem de ocupar espaços historicamente dominados por homens.

Formou-se em 1926, e alguns anos depois, ao mudar-se para o Rio de Janeiro, começou a trabalhar em instituições psiquiátricas públicas. Neste momento percebeu que os hospitais psiquiátricos da época funcionavam muito mais como locais de confinamento do que como espaços de cuidado. Os pacientes eram frequentemente submetidos a tratamentos violentos, como eletrochoques, comas induzidos por medicamentos e até lobotomias — procedimentos invasivos que buscavam controlar comportamentos considerados problemáticos.

Nise da Silveira demonstrou forte resistência a essas práticas, pois acreditava que tais métodos ignoravam a complexidade da mente humana e reduziam os pacientes a objetos de intervenção médica. Para ela, era necessário compreender o sofrimento psíquico de maneira mais profunda, levando em consideração o mundo interno, as emoções e a história de vida de cada indivíduo.Essa postura crítica fez com que ela enfrentasse resistência dentro da própria comunidade médica. Mesmo assim, manteve-se fiel às suas convicções.

Um episódio marcante de sua vida ocorreu durante o período do governo de Getúlio Vargas, especialmente no contexto do regime autoritário conhecido como Estado Novo. Em 1936, Nise foi denunciada por possuir livros considerados “subversivos”, entre eles obras de inspiração marxista. Em um clima político de forte repressão às ideias consideradas de esquerda, ela foi presa e passou cerca de um ano e quatro meses em um presídio no Rio de Janeiro. Durante esse período, conviveu com diversos intelectuais e militantes políticos também perseguidos pelo regime. Após ser libertada, foi afastada do serviço público e permaneceu anos sem poder exercer plenamente sua profissão. Somente em 1944 conseguiu retornar ao trabalho na rede pública de saúde. Essa experiência de repressão política e exclusão institucional marcou profundamente sua visão de mundo e reforçou ainda mais sua defesa da liberdade, da dignidade humana e da resistência às estruturas opressivas.

E foi nesse contexto que surgiu uma de suas contribuições mais importantes para a saúde mental: o uso da arte como ferramenta terapêutica. Em 1946, trabalhando no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Rio de Janeiro, ela criou um setor de terapia ocupacional completamente diferente do que era comum na época. Em vez de atividades repetitivas e mecânicas, que muitas vezes tinham apenas o objetivo de manter os pacientes ocupados, Nise organizou ateliês de pintura, modelagem e outras formas de expressão artística.

A proposta era simples, mas profundamente revolucionária: permitir que os pacientes expressassem seus sentimentos, pensamentos e experiências por meio da arte. Ao pintar, desenhar ou modelar, muitos pacientes conseguiam comunicar conteúdos internos que não conseguiam expressar verbalmente. Essas produções revelavam universos simbólicos complexos, repletos de imagens, cores e formas que refletiam seus estados emocionais e psicológicos.

Nise acreditava que essas expressões artísticas poderiam oferecer pistas importantes sobre o funcionamento da mente. Inspirada também por ideias da psicologia analítica de Carl Jung, ela passou a estudar cuidadosamente essas obras, percebendo que nelas surgiam símbolos recorrentes, imagens arquetípicas e narrativas visuais profundas.

Com o tempo, o volume e a riqueza dessas produções artísticas cresceram tanto que, em 1952, Nise fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro. O espaço foi criado para preservar, catalogar e estudar as obras produzidas pelos pacientes. Hoje, o museu reúne centenas de milhares de trabalhos e é reconhecido internacionalmente como um importante centro de pesquisa sobre arte e saúde mental.

O museu também ajudou a transformar a maneira como a sociedade via pessoas com transtornos mentais. Em vez de serem percebidas apenas a partir de seus sintomas, essas pessoas passaram a ser reconhecidas como sujeitos criativos, capazes de produzir obras profundas e significativas. Esse reconhecimento teve um impacto importante na luta contra o estigma associado à doença mental.

Outra iniciativa inovadora de Nise foi o uso de animais no ambiente terapêutico. Ela observou que a convivência com gatos e cães dentro do hospital ajudava os pacientes a desenvolver vínculos afetivos, responsabilidade e cuidado. Para Nise, esses animais funcionavam como verdadeiros “co-terapeutas”, capazes de despertar emoções e facilitar processos de conexão emocional que muitas vezes eram difíceis nas relações humanas.

Essa abordagem afetiva e humanizada representava uma ruptura com a lógica fria e institucional dos hospitais psiquiátricos tradicionais. Nise defendia que o tratamento deveria levar em conta o afeto, a escuta e o respeito à subjetividade do paciente. Em vez de tentar apenas controlar comportamentos, o objetivo deveria ser compreender a pessoa em sua totalidade.

Seu trabalho teve grande influência no movimento que, décadas depois, daria origem à reforma psiquiátrica brasileira, que buscou substituir o modelo manicomial por uma rede de cuidados comunitários e humanizados em saúde mental.

Além de suas contribuições científicas e clínicas, a trajetória de Nise da Silveira também carrega um significado simbólico poderoso para a história das mulheres na ciência. Em um período em que poucas mulheres conseguiam ocupar posições de destaque na medicina, ela construiu uma carreira sólida, enfrentou preconceitos e se tornou referência internacional.

Mais do que isso, Nise demonstrou que a ciência pode — e deve — ser guiada por sensibilidade, empatia e compromisso ético. Seu trabalho mostra que conhecimento técnico e sensibilidade humana não são opostos, mas complementares. Essa visão ampliada da prática clínica continua inspirando profissionais da psicologia, psiquiatria e outras áreas da saúde.

Nise da Silveira faleceu em 1999, aos 94 anos, deixando um legado profundo. Suas ideias continuam vivas em práticas terapêuticas que valorizam a arte, a expressão simbólica, o vínculo afetivo e a dignidade das pessoas em sofrimento psíquico.

Mais do que uma psiquiatra brilhante, Nise foi uma pioneira que desafiou paradigmas e abriu caminhos. Sua história nos lembra que a transformação da saúde mental não acontece apenas por meio de técnicas ou tecnologias, mas também através de coragem, sensibilidade e compromisso com a humanidade do outro. Ao relembrar sua trajetória, reafirmamos também a importância das mulheres que, ao longo da história, ousaram questionar estruturas rígidas e construir novas formas de cuidar, pensar e transformar o mundo. O legado de Nise da Silveira é, portanto, não apenas científico, mas também humano — um convite permanente para que a saúde mental seja tratada com respeito, criatividade e compaixão.

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